Como identificar imagens geradas por inteligência artificial?
Os modelos de IA generativa estão cada vez melhores, mas ainda deixam pistas de sua autoria. Veja 6 passos para detectá-los.
Foi-se o tempo em que imagens geradas por inteligência artificial eram facilmente detectáveis. Há três anos, havia pistas claras nas representações de humanos – mãos com dedos a mais, ou dedos colados uns aos outros – e nas representações de placas, fachadas e afins – os textos eram sempre um pouco distorcidos, com letras embaralhadas ou palavras que simplesmente não faziam sentido. Não é mais assim.
As empresas por trás dos modelos de geração de imagens, como o DALL-E e o Midjourney, trabalharam especificamente para consertar incoerências como as mencionadas acima, nos últimos anos, e tornar suas ferramentas capazes de criar imagens mais realistas. Este sempre será o objetivo, afinal.
O problema é: “Está se tornando quase impossível dizer o que é real”, nas palavras de Henk van Ess, investigador americano que ajuda veículos de imprensa a combater a desinformação, identificando imagens alteradas digitalmente ou geradas por inteligência artificial. (A afirmação é de setembro, e os nove meses que se seguiram são tempo considerável para os modelos de IA generativa se tornarem ainda melhores em produzir imagens que parecem verídicas.)
No Reddit, um internauta desabafou sobre o fato de não conseguir distinguir entre imagens reais e aquelas geradas por inteligência artificial: “Honestamente, é bem constrangedor […]. Sinto como se não conseguisse ler.” Na mesma página, outra pessoa alertou corretamente que “a maioria dos conselhos que você recebe [para detectar imagens fake] estará desatualizada em cerca de um ano”.
É verdade. Mas o fato de que se tornará cada vez mais difícil deve ser um incentivo para você, caro leitor, começar a se inteirar do assunto.
Existem criações que podem não ofender ninguém. Mas também existem os deepfakes, usados por criminosos para aplicar golpes, difamar terceiros, criar escândalos políticos e espalhar desinformação. Daí a importância de treinar seus olhos e ficar em alerta.
Vamos, então, às dicas.
1. Desconfie da perfeição
É comum que imagens geradas por IA pareçam perfeitas demais – artificiais, mesmo. Por isso, confira se a pele das pessoas retratadas têm textura naturalmente imperfeita, por exemplo, manchas, poros aparentes e rugas. Avalie se o rosto tem pequenas assimetrias e se é possível enxergar fios de cabelo individuais. Vale o mesmo para roupas: na vida real, sempre formam vincos, ficam amassadas em algumas regiões. Nas imagens falsas, podem perder essa complexidade na textura.
Pense também se o grau de perfeição encontrado na imagem faz sentido com o contexto: pessoas em um protesto ou vítimas de um desastre natural, por exemplo, não estariam com o cabelo bem penteado em um registro espontâneo. Mesmo imagens que parecem ter saído de um ensaio editorial podem ser desmascaradas por apresentarem certa atmosfera etérea e uma suavidade exagerada, como no caso abaixo.
2. Preste atenção aos detalhes
Lembra do Papa Francisco usando uma jaqueta puffer em 2023? Um olhar atento era suficiente para desmascarar a imagem: a corrente que pendura o crucifixo no pescoço do pontífice estava incompleta, por exemplo, mas o acessório estava magicamente no lugar. Obra de uma inteligência artificial (no caso, o MidJourney) que não entende princípios básicos do nosso mundo, então erra tentando imitá-lo.
Os modelos de IA generativa estão cada vez melhores, mas ainda deixam pistas claras de sua existência. Ao desconfiar de uma imagem, preste atenção aos detalhes. Observe as luzes e sombras, por exemplo. Em cenas que têm uma única fonte de luz, todas as sombras devem apontar para a direção contrária à fonte. É o que acontece quando existe apenas a luz solar, por exemplo.
Existem outros erros básicos de geometria e perspectiva: em uma foto, linhas que são paralelas na vida real, como os azulejos de uma parede ou as janelas de um prédio, convergem para um único ponto de fuga no horizonte (entenda neste artigo). “[Mas] a IA generativa não entende de física nem de geometria, e acaba criando todo tipo de coisa absurda”, como disse Hany Farid, um dos maiores especialistas do mundo em perícia digital, à revista Science em abril.
Um olhar atento também pode estranhar imagens de grupos geradas por IA. Algum rosto pode estar desfigurado, e a multidão pode parecer artificial, com todas as pessoas olhando exatamente na mesma direção, em vez de apresentarem comportamentos variados.
3. Procure erros contextuais
De novo: a IA não entende nosso mundo, apenas cria imagens com base nos padrões que identificou no conjunto de informações usado para treiná-la. Os modelos podem gerar resultados incoerentes, que não obedecem ao contexto do mundo real.
Pergunte, portanto, se a qualidade da iluminação em determinada imagem combina com as circunstâncias. Se as roupas, vegetação e arquitetura retratadas fazem sentido com a suposta data e localização da cena. Se a paisagem, os veículos e outros objetos da imagem não teriam saído de uma viagem no espaço-tempo.
Confie nos seus instintos se algo parecer fora do lugar, e pesquise outros registros, em diferentes ângulos, do mesmo acontecimento.
4. Faça uma busca reversa
Ou seja: pesquise a imagem na internet para entender em quais sites e contextos ela já apareceu, e por quem foi compartilhada. Acesse ferramentas como Google Imagens, TinEye, Bing, Getty Images, e Yandex. Então, faça upload ou cole o endereço da imagem que você deseja investigar.
Usando navegadores como Google Chrome e Microsoft Edge, você pode fazer essa busca diretamente, sem acessar uma ferramenta específica. É só clicar na imagem com o botão direito do mouse e selecionar “Procurar imagem no Google” ou “Pesquisar imagem na web”. No smartphone, você pode usar a função Google Lens do aplicativo de pesquisa do Google.
5. Confira os metadados
Os metadados de uma imagem podem revelar informações como a data e o local de sua criação, seus direitos autorais e as configurações da câmera. Para visualizar os metadados no computador, salve a imagem que deseja investigar, acesse a pasta de arquivo correspondente, clique com o botão direito na imagem e selecione “Propriedades”.
No celular, salve a imagem e, na galeria de fotos do seu dispositivo, acesse os detalhes da imagem no menu correspondente (no Google Fotos, por exemplo, os metadados estão na aba de “Informações”, cujo ícone é a letra “i” dentro de um círculo).
6. Recorra a ferramentas especializadas
Nossa recomendação é o Image Whisperer, criado por Henk van Ess, o investigador que citamos no início deste texto. Você pode subir duas imagens por dia no site – ou assinar um plano para fazer mais verificações. O sistema executa 42 verificações em paralelo para identificar sinais de que sua imagem foi criada ou modificada por inteligência artificial e outras tecnologias. Ao fim, fornece um veredito e explica a conclusão de maneira bastante clara.
Trata-se de um site em inglês, mas você pode traduzi-lo automaticamente usando ferramentas do seu navegador. No Chrome, por exemplo, você pode fazê-lo clicando nos três pontinhos no canto direito superior da janela e selecionando a opção “Traduzir”.
Você pode treinar sua capacidade de detecção no quiz “Real or Not”, criado pela Microsoft, clicando aqui. Outro teste interessante é este, da Enciclopédia Britânica, também em inglês. A página é de março de 2024, porém, e as imagens fake são menos realistas, mais fáceis de se detectar. Bom para os iniciantes no assunto. 😉
Fontes: Global Investigative Journalism Network, Enciclopédia Britânica, Science, Estadão Verifica.





