Uso de IA no trabalho enfraquece colaboração entre gerações e eleva risco de burnout
Para 44% dos profissionais, o incentivo à tecnologia reduziu a busca por orientação de colegas mais experientes, aumentando as chances de conflitos e esgotamento corporativo.
A inteligência artificial promete aumentar a produtividade, acelerar processos e democratizar o acesso à informação. No entanto, dentro das organizações, um efeito colateral menos visível começa a desestabilizar as equipes: quanto mais a tecnologia passa a ocupar o espaço das interações entre diferentes gerações, maior tende a ser o desgaste no ambiente corporativo.
Dados do Stanford Digital Economy Lab mostram que profissionais de 22 a 25 anos, que recorrem cada vez mais às ferramentas em vez de buscar orientação de colegas mais velhos, já enfrentam queda relativa de 13% no emprego, em ocupações mais expostas à IA. Para a cientista comportamental Gaya Machado, o desafio não é puramente tecnológico, mas relacional. “A tecnologia acelera resultados, mas não substitui a construção do conhecimento entre pessoas”, afirma.
Outro estudo, State of Generations at Work, feito pela consultoria global O.C. Tanner, revela que conflitos de comunicação e barreiras de colaboração entre faixas etárias elevam em seis vezes as chances de burnout entre os funcionários. Em contrapartida, apenas 26% dos profissionais afirmam vivenciar a chamada “sinergia geracional” – um ecossistema em que diferentes gerações aprendem mutuamente e operam de forma integrada. “Quando essa sinergia é cultivada, as chances de baixa rotatividade triplicam, acompanhadas por saltos expressivos em inovação e confiança”, descreve.
A pesquisa identifica ainda uma mudança nos hábitos dos trabalhadores em início de carreira: na hora de solucionar dúvidas, consultam motores de IA em detrimento do diálogo humano. Segundo o relatório, 38% relatam que o incentivo ao uso da tecnologia reduziu a busca por orientação sênior, enquanto 44% apontam que ela tornou mais complexa a cooperação com colegas de outras idades. Entre Millennials e a Geração Z, essa tendência se manifesta de forma ainda mais acentuada.
“Quando o profissional substitui sistematicamente essa troca pela tecnologia, ele ganha agilidade para resolver tarefas, mas perde acesso ao contexto, aos critérios e ao repertório que normalmente só aparecem na convivência com quem já viveu situações semelhantes”, afirma Gaya sob a ótica da psicologia cognitiva.
Julgamento humano frente à automação
Ela ressalta, no entanto, que o cenário não configura uma disputa geracional, mas sim uma reavaliação de competências. “Existe uma tendência de imaginar que dominar ferramentas será suficiente para acelerar a carreira”, afirma. “Mas, justamente nesse tempo em que a IA executa tarefas técnicas, ganha valor aquilo que ela ainda não produz sozinha: julgamento, leitura de contexto, capacidade de negociar, interpretar situações ambíguas e tomar decisões com base na experiência”.
O próprio relatório da O.C. Tanner corrobora essa visão, segundo a especialista em comunicação e comportamento, ao demonstrar que empresas focadas em sinergia geracional reduzem atritos, fortalecem o pertencimento e posicionam a tecnologia como suporte, e não como substituta das conexões humanas. Nesses espaços, os colaboradores têm quatro vezes mais propensão a buscar auxílio em outras gerações, oxigenando a capacidade de adaptação organizacional.
“Empresas que conseguem preservar essa aprendizagem entre gerações transformam a tecnologia em vantagem competitiva, em vez de permitir que ela aprofunde distâncias dentro das equipes”, conclui.





