Os estagiários serão substituídos pela IA?
Com agentes executando tarefas operacionais, empresas se veem tentadas a reduzir posições de entrada. Mas isso acende um alerta para o futuro.
Com a automação e a inteligência artificial assumindo boa parte das tarefas operacionais, organizações brasileiras de diversos setores se deparam com as mesmas perguntas incômodas: se agentes fazem o trabalho básico, o que sobra para o estagiário aprender?
Até então, as oportunidades de estágio oferecem uma jornada de desenvolvimento relativamente previsível: o jovem entra na empresa para lidar, inicialmente, com atividades simples, entre lançar notas fiscais, fazer atendimento, elaborar relatórios, conferir dados. Aos poucos, ele vai ganhando responsabilidades maiores até ser efetivado como um assistente ou júnior.
Porém, de uns meses para cá, esse roteiro ganhou uma camada extra de complexidade e já desperta discussão sobre as vagas de nível de entrada. Como as companhias vão formar as lideranças de nível intermediário daqui a alguns anos? Esse é um problema que, segundo Tiago Mavichian, CEO da Companhia de Estágios, deve ser encarado de frente pelas empresas.
E ele destaca algumas variáveis: “Se o mercado precisa de talentos para sustentar o crescimento das organizações, o estagiário terá um novo papel”, afirma o executivo. “O desafio, então, estará em formar os jovens de maneira acelerada, para que consigam atuar com atividades mais complexas e usando IA, não dá para abrir mão da formação das pessoas.”
Tiago lembra ainda que, diante da automação de tarefas mais simples, as empresas devem se ver tentadas a reduzir posições de entrada. “Mas isso acende um sinal de alerta para o futuro em relação ao custo de atrair apenas profissionais experientes e à disponibilidade desses talentos no mercado”, detalha o CEO.
Estudantes com mais bagagem
Antes mesmo da inteligência artificial se consolidar no mercado de trabalho, o papel do estagiário já estava em transformação, diante do impulso na contratação de jovens aprendizes para atividades consideradas mais operacionais. Em 2025, essa modalidade atingiu a marca recorde de 715.277 contratados, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego.
Os programas de estágio ganharam um perfil mais exigente, voltado a demandas de maior complexidade. “No lugar de termos jovens no primeiro ou segundo ano da faculdade fazendo tarefas extremamente básicas, as posições de estágio passaram a buscar estudantes mais avançados no curso, com mais bagagem e capacidade de assumir atividades mais sofisticadas desde o início”, comenta.
E agora, com a automação, esse movimento está acelerando de forma muito mais intensa: relatórios, lançamentos em sistema, atendimento e tudo o que há na rotina de estágio vem sendo absorvido rapidamente por ferramentas de IA. “Na prática, isso aponta para o que se torna o novo papel do estagiário: menos execução repetitiva e mais participação supervisionada em problemas reais”.
Ou seja, no lugar de “aprender fazendo” apenas tarefas mecânicas, o jovem passa a atuar ao lado de profissionais mais experientes, validando o que a IA entrega, questionando resultados e sendo exposto a decisões que exigem julgamento, e não apenas execução.
O resultado, porém, é um paradoxo que, na visão do Tiago, poucas companhias percebem com clareza. “O estagiário não consegue fazer atividades muito elaboradas e a tendência é ter cada vez menos atividades básicas para se demandar a um estagiário. No entanto, se a empresa não trabalhar com formação de jovens, ela terá um buraco nessa camada de talentos”, ilustra ele, que finaliza com a pergunta: “quando ela precisar contratar para cargos mais avançados, quem terá na sucessão?”.
Ação e consequência
A reflexão do CEO está baseada em dados recentes. Uma pesquisa da Gartner feita com 509 líderes da cadeia de suprimentos mostra que 55% dos respondentes esperam uma redução na contratação de posições de entrada por conta do avanço da IA agêntica. A consultoria também projeta que, até 2030, 75% das organizações que cortarem a contratação de posições de entrada podem se deparar com sobretaxas de 15% para atrair profissionais early-career no futuro, justamente pela escassez que essa pausa pode gerar.
“Parar de contratar e deixar de desenvolver profissionais no início de carreira cria lacunas futuras no pipeline de talentos, insatisfação e prêmios salariais mais altos para atrair quem já tem experiência com IA”, acredita Tiago, que atribui às lideranças de RH e aos gestores decidirem onde e como a tecnologia será aplicada e o que será preservado em termos de formação e oportunidade para as novas gerações. “É uma decisão difícil”. É descobrir junto o que significa a expressão “aprender fazendo” em tempos de IA.





