Inteligência artificial pode ajudar autistas a falar sobre sentimentos

Com o apoio da tecnologia, adultos neurodivergentes podem transformar suas emoções difíceis de expressar em textos, versos e músicas.

Por Izabel Duva Rapoport 29 jul 2026, 21h00 | Atualizado em 20 ago 2026, 15h40
Tela de celular com vários emojis amarelos, um deles no centro com olhos fechados e três corações vermelhos ao redor, indicando amor
 (Domingo Alvarez E/Unsplash)
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Um novo papel inesperado da inteligência artificial começa a chamar atenção entre adultos neurodivergentes: o uso dessas ferramentas como apoio para organizar e comunicar sentimentos. Para Tiago Zanolla, fundador da UFEM Educacional, essa possibilidade surgiu do imprevisto. Diagnosticado com autismo nível 1 na vida adulta, ele afirma que encontrou na tecnologia uma forma de expressar emoções que, durante anos, permaneceram presas entre o pensamento e a fala. “Eu tinha dificuldade em transformá-la em conversa”.

O especialista em educação deixa claro, porém, que a IA não sente por ele, não substitui relações humanas e nem resolve os desafios do autismo. “O que ela faz é me ajudar a organizar aquilo que eu não conseguia colocar para fora”, esclarece, ressaltando que passou grande parte da vida sem diagnóstico ou suporte adequado. “Pela primeira vez fui capaz de enxergar meus sentimentos traduzidos de uma forma que fazia sentido para mim”.

Ao contrário da percepção comum sobre o transtorno, muitos adultos como Tiago trabalham, lideram equipes, empreendem, constroem famílias e mantêm uma rotina. Existe, porém, segundo ele, uma diferença entre parecer funcional e conseguir lidar com todos os desafios emocionais e sociais que fazem parte da vida cotidiana. “Muitos ainda associam o autismo apenas aos casos que exigem níveis mais elevados de suporte, ignorando uma parcela enorme de pessoas que aprende a se adaptar, a observar comportamentos e a criar mecanismos para funcionar socialmente”, conta.

Falar em público, conduzir treinamentos e dar palestras, aliás, sempre foi mais fácil para Tiago, comparando com conversas mais íntimas. “Falar sobre o que estou sentindo é muito mais complexo”.

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O encontro com a tecnologia

Seu contato com ferramentas de IA começou sem expectativa. Até que ele passou a escrever palavras soltas, sensações e pensamentos fragmentados e desconexos no chatbot. “A ferramenta organizava aquilo em um texto, um poema ou uma narrativa. Depois eu revisava tudo, ajustava, retirava excessos e deixava com a minha voz”, explica. “A emoção era minha. O sentimento era meu. Mas agora ele tinha forma.”

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Logo, seus textos se transformavam em canções, por meio de plataformas de geração musical baseadas em IA. O objetivo, Tiago diz, era “ouvir seu sentimento por inteiro, e não pela metade e nem de forma distorcida”.

O educador conta que o uso da tecnologia para comunicação emocional ainda é pouco discutido fora dos ambientes especializados, mas vem ganhando espaço à medida que ela se torna mais acessível e, sobretudo, inclusiva. “Nem todo mundo consegue se expressar da mesma maneira: alguns falam com mais facilidade, outros escrevem melhor e há ainda os que se comunicam por imagens, música ou arte”, diz.

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“Quando a tecnologia amplia as possibilidades e permite que alguém seja compreendido com menos esforço, existe um ganho real de acessibilidade”. Tiago segue aprendendo a falar sobre o que sente. “Talvez isso nunca deixe de ser um desafio”, acredita. “A diferença é que hoje eu tenho um recurso que me ajuda a atravessar a distância entre o que acontece dentro de mim e aquilo que consigo compartilhar com os outros.” 

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